4 de abr de 2016

Ed Motta explana Perpetual Gateways ao Bloptical

Transitando na linha tênue entre o jazz e o pop, Ed Motta lança em 2016 Perpetual Gateways, novo álbum de inéditas todo em inglês. Bancado e lançado pelo selo alemão Membran, Ed Motta compôs tudo, letra e música e, para auxilia-lo no terreno americano, chamou o experiente produtor Kamau Kenyatta, que trouxe um elenco estelar de músicos. Ao Bloptical, Ed explana alguns processos da gravação e revela de quebra alguns segredos exclusivos!

foto: Chachi Ramirez


Produção, arranjos e gravação.

1) O álbum traz, em suas primeiras faixas, reminiscências de seu trabalho anterior, AOR, disco que lhe abriu novamente as portas da Europa e do Japão. Mas conforme segue, o disco acaba confluindo num caminho proeminentemente jazzístico. Quais as influências e inspirações para gerar Perpetual Gateways?
Ed Motta: Acho que precisei dividir o disco em duas partes, porque eu tinha temas que realmente remetiam ao álbum AOR e outros que estavam na esfera dos meus discos Dwitza e Aystelum.
Penso que o ponto que deu a liga entre os dois estilos foi o fato de trabalhar com os mesmos músicos.
Lembra-me os discos do selo CTI/Kudu Records onde Rudy Van Gelder (lendário engenheiro de som da Blue Note) gravava tudo num contexto mais elétrico.

2) Você sempre produziu seus discos. Mas em Perpetual Gateways, a produção é assinada por Kamau Kenyata. Porque a decisão de chama-lo para produzir? E qual exatamente foi o papel dele dentro do álbum, haja vista que você sempre leva seu trabalho com mão de ferro?
Ed Motta: O selo Membran (que lançou o disco no mundo todo) me propôs um disco gravado nos EUA, e aí eu pensei que precisaria de ajuda em vários sentidos, pois os norte-americanos não são exatamente as pessoas mais fáceis de se lidar.
Então queria ter um aliado estético, e o Kamau foi isso, um parceiro mesmo.
Me ajudou organizando na formacão da banda, na metodologia dentro do estúdio para caber (as gravações) no tempo que era curto, me ajudou gravando minhas vozes, cuidando da dicção, afinação. etc.
Kamau é um cara muito culto, fica agradável de conviver, as conversas no estúdio sobre cinema preto e branco, além de que, todos os dias, fomos a lojas de discos, dia e noite.
Ele é um profundo estudioso da música brasileira, vai de Tito Madi até Sueli Costa, sabe a fonte cristalina mesmo.

3) Sua voz está cada vez mais límpida e forte, entre as quais podemos citar a faixa 'Forgotten Nickname', belíssima. Todos os tracks de voz foram gravados junto com a banda, no esquema 'todos juntos ao vivo'?
Ed Motta: Não. Mas gravei minhas vozes em tempo recorde, em 2 dias, Kamau me ajudou muito nisso, eu não precisava checar cada bloco de frases na sala de controle, como sempre faço, porque sou sempre o produtor. 
Mas ele é mais do que produtor, é compositor, grande músico, professor, possui experiência de alto nível artístico e intelectual.

4) Uma diferença nos arranjos em Perpetual Gateways é notadamente a ausência de guitarras. É seu primeiro disco em que ela não se faz presente. Há algum motivo específico? E, nos shows desta turnê, não haverá espaço para guitarristas?
Ed Motta: Foi uma sugestão do Kamau, ele comentou: e se a guitarra ficasse de fora do disco?
Eu achei interessante, seria uma pontuação por ser um disco bem atípico, com um produtor, gravado nos EUA, com essas lendas todas etc.
A tournê na Europa não vai ter guitarrista, mas tem 2 sopros. No Brasil não tenho nada previsto mas preciso preparar algo diferente, aqui é outra coisa, é uma história, desde 1988 cheio de hits etc.
E apesar de toda polêmica e mal-entendido a respeito do significado do meu comentário sobre Manoel, eu tenho felicidade de apresentar temas meus que foram sucesso de grande público. E adoro tocar no Brasil.

5) É também o primeiro álbum em que assina todas as letras das músicas. Está fatigado da experiência de ter suas músicas letradas por outros ou é apenas um novo caminho a seguir?
Ed Motta: Eu espero que seja um novo caminho, eu sempre tive vontade disso devido ao meu interesse por cinema, quadrinhos, roteiros etc. Mas minha implicância com a ditadura da letra sempre me irritou demais, então fiquei anos e anos sem olhar para isso com seriedade e respeito.
Escrever as letras foi um dos pontos altos do disco pra mim, talvez pelo fato de ser algo novo em minha carreira.


Perpetual Tour.

6)  Apesar do disco ser em inglês e com um estilo distante do que se ouve nos palcos brasileiros, há a chance de vermos Perpetual Gateways live in Brazil? E já tem ideia de quais seriam os músicos, já que a banda que o acompanha atualmente tem base na Europa (e seria difícil traze-los para o Brasil).
Ed Motta: Eu torço que sim. Por enquanto não houve manifestação dos produtores locais, mas estou aguardando por isso. Assim que eu conseguir algum compromisso vou atrás da banda, porque hoje em dia a conversa é mais objetiva com os músicos.

7) Há alguma possibilidade ou ideia de convidar os músicos que gravaram o disco em estúdio a participarem de algum show? Assim como aconteceu com o guitarrista David T. Walker, que gravou no disco AOR e participou do show no Japão.
Ed Motta: No festival North Sea Jazz na Holanda queria convidar a Patrice Rushen e o Hubert Laws, mas seria um pouco difícil chegar numa negociação (datas e outros detalhes técnicos).
Talvez o Japão possa organizar algo assim. No Brasil seria extremamente possível, através de algum festival.

8) Seu primeiro e único DVD foi lançado há mais de uma década. Há algum planejamento para algo no futuro, como registrar a turnê deste disco ou fazer um 'best of' live?. 
Ed Motta: Eu pretendo fazer um DVD solo esse ano, notícia em primeira mão! 

9) Quais os próximos shows?
Ed Motta: Serão na Europa. Em abril, maio, junho e julho, a turnê passará por Alemanha, Áustria, Suiça, República Checa, Montenegro e Holanda. E em 2017, já há shows agendados no Frankfurt Sendesaal, na Alemanha.
(Bloptical Staff)

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