20 de mai de 2009

O Desafio de agradar

Ed Motta está trabalhando no seu novo disco.

Para muitos cantores, grupos e bandas, poderia ser fácil prever as novidades, mas em se tratando de Ed Motta, os fãs, assim como eu, devem ficar na expectativa de algo sempre inovador. No Orkut, enquetes já especulam qual será o estilo adotado no novo trabalho.

Eis a questão: “O artista deve agradar musicalmente ao seu público ou a si mesmo?”

Fazendo uma análise pessoal na discografia do Ed Motta, encontraremos essa resposta.
Em 1988, ele lançou, com a Conexão Japeri, seu primeiro disco. Era algo totalmente inovador para a época; influenciado pelas guitarras de “B.T. Express”, Ed Motta e Conexão Japeri revelavam grooves e guitarras suingadas enquanto o rock nacional ainda estava no auge. Manuel segue Ed Motta até hoje em todos os shows!

“Um Contrato com Deus” (1990), primeiro disco solo, é um trabalho diferenciado. Ed Motta e Bombom (co-autor e co-produtor do disco) expuseram suas influências particulares, inserindo vinhetas e muitos detalhes. Comercialmente falando, talvez, “Solução” tenha sido o único grande sucesso deste disco.

O disco “Entre e Ouça” (1992) é um trabalho que traz muitas riquezas, mas também uma grande contradição. Numa grande aposta em si mesmo, Ed Motta investiu detalhes nos timbres, na qualidade da gravação, letras, arranjos e carinhos nesse disco, porém não alcançou as pretensões comerciais da gravadora. Hoje é um disco raro e muito apreciado pelos seus fãs!

O “Ao vivo” (1993) é o outro típico disco contraditório, pois agradou a grande maioria dos fãs, mas não agradou ao artista Ed Motta. Foi um trabalho produzido e lançado pela própria gravadora, sem o dedo do cantor. Basta analisar a dedicação na produção dos discos anteriores como a capa, execução, qualidade de gravação, etc. Uma grande vantagem deste disco foi o destaque que as músicas do CD “Um Contrato com Deus” alcançaram.
Curiosidade: Há um disco gravado nos EUA na época do lançamento do “Ao Vivo” que nunca fora lançado oficialmente.

Por um longo período Ed Motta fez apenas algumas participações especiais (destaque para “Ainda Lembro”, com Marisa Monte) e diante de um perigoso risco de ser um artista “que não deu certo”, surge a idéia necessária de lançar trabalhos pops, porém sob a ótica de Ed Motta. Em 1997, sai o disco “Manual Prático para Bailes e afins, Vol. 1”, encabeçado pelo mega sucesso “Fora da lei”. Em 1998, sai “Remixes e aperitivos” – algo jamais cogitado na cabeça do Ed (tem até uma versão em português de um sucesso internacional, coisa que Ed claramente se posta contrário!), e em 2000 “As Segundas Intenções do Manual Prático”, que é um dos prediletos da maioria, devido à produção e arranjos. Uma “trilogia” para ninguém botar defeito - uma grande colheita de sucessos.

Quebrando todas as expectativas de um novo trabalho pop, o “Dwitza” (2001) deixou todos os “manuéis” de boca aberta ao ouvir timbres diferentes e o Edmottês dominando as melodias!! Acompanhei um show dessa turnê em Brasília, e foi notória uma insatisfação da grande maioria que foi assistir ao jazzístico Ed Motta. Para os gringos, um sucesso absoluto, mas para o Brasil ........ para o Brasil foi necessário um “Poptical” (2003), que, como o nome sugere, passeia pelo Ed Pop. Parcerias importantes como Seu Jorge, Adriana Calcanhoto... e um “Tem Espaço na van” para trazê-lo para a graça da geral. Mais um sucesso comercial, porém amparado pela lapidação criteriosa de Ed.

O que dizer de um “Aystelum” (2005) – ainda não compreendido pela maioria de seus fãs - e um “Chapter 9” (2008) – com guitarras distorcidas?

Enfim, Ed Motta é um cara que está sempre à frente. Entre e Ouça é um disco, hoje, de grande refinamento, mas de complexidade musical acima da média em 1992. “Dwitza”, “Aystelum” e “Chapter 9” certamente alcançarão este destaque - no Brasil- num futuro próximo.
Apesar das polêmicas que cercam o perfil criterioso de Ed Motta, sabemos que há um grande esforço da sua parte em contribuir com a cultura musical brasileira.

Alguns artistas tentaram tanto agradar seus fãs que se perderam no caminho, mudaram completamente seu estilo musical para contabilizar “cifra$” do sucesso. Lembro de uma entrevista com Vinny onde ele dizia: “Eu jamais colocaria meu cd para ouvir na minha casa, não é música para se ouvir e curtir dessa forma” – sem comentários...

Diante do desafio de agradar a grande verdade é que o artista deve sempre procurar o equilíbrio entre sua pretensão musical e a satisfação daquele que admira o seu trabalho.

Um comentário:

Magnum Freire disse...

Assino embaixo e ainda dou um ponto final pra enfatizar essse belo texto do Daniel